23/07/2012

Abrigue-se!

            Desde Cesare servindo de fantoche para o Dr. Caligari, as psicopatias tem servido ao Cinema. Das obsessões de Travis Binckle aos acessos psicóticos de Norman Bates, da doença o personagem de Al Pacino em "Insônia" a esquizofrenia do protagonista de Clube da Luta (1999) - spoilers, ops. Os mistérios da mente sempre foram um campo fértil para muitas historias.
            De todas estas, a esquizofrenia talvez seja a que mais rende, pois os sintoma mais característico da doença, a alucinação, permite que um cineasta dê vazão a torrente audiovisual própria da sétima arte. Porém, é necessário a mão de um diretor talentoso e de um roteirista sem medo de tornar o filme complexo, para a doença não ser retratada de forma simplista como "o protagonista é o assassino, te pegamos!", como diversos longas atuais fazem (vide Amigo Oculto (2004) - spoilers novamente). 
            Felizmente, o caminho trilhado pelo protagonista de Take Shelter (2011) - que saiu por aqui como O Abrigo - é dos mais emaranhados: a história de um homem obcecado com as visões que tem de uma tempestade iminente e que se vê obstinado a construir um abrigo subterrâneo em sua propriedade é conduzido de forma magistral. Jeff Nichols, neste seu segundo longa, subverte um pouco o clichê cansado do "foi tudo um sonho" dando diversas pistas durante o filme que fazem o espectador genuinamente se perguntar qual é a natureza do que Curtis, personagem de Michael Shannon, vê. 
            Shannon, cuja única outra interpretação que lembro está em Foi Apenas Um Sonho (2008) - e lembro dele se destacar neste filme - leva basicamente o filme nas costas, carregando o semblante da extrema confusão que seu personagem se encontra, de forma magnífica. Jessica Chastain, que também teve outro papel de mãe em A Árvore da Vida (2011) de Terrence Malick, mostra a mesma leveza que naquele longa, numa relação de "proximidade distante" sempre evidente com o marido.


            O Abrigo é um filme que mantém as suas próprias regras intactas do início ao fim, sem apelar para soluções de última hora para solucionar a trama. O final, apesar de surpreendente, não contém aquela carga de surpresa de filmes como Sinais (2002) - filme ao qual O Abrigo me remete em clima, mas apenas isso; estamos falando aqui de um filme muito superior - porque todas as pistas já estão ali. Mesmo assim, a direção absolutamente segura nos faz trocarmos uma teoria por outra sem nos sentirmos enganados por alguma mudança abrupta da lógica do longa.
            É interessante notar também, como o filme faz uso de efeitos de computação gráfica de forma eficaz, sem tirar o clima de seriedade da história. É o tipo de coisa que justifica o uso dessa tecnologia, como auxílio em tornar possível detalhes e cenas que não seriam viáveis de outra forma e não como muletas para apoiar uma narrativa inteira.
            Tão absorvente e inquietante como outras obras sobre um tema parecido, Alucinações Do Passado (1990), O Abrigo é uma das obras mais significativas sobre o que chamamos vulgarmente de "loucura" e merece ser visto por todos que remotamente se interessem pelo tema. É um filme em que cada segundo é bem pensado e construído, com detalhes da primeira cena se repetindo na última de forma a até deixar arrepiado o espectador mais atento.

            Assista ao trailer e bom filme!


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